Pelo Poder da Linguagem

    A diversidade de culturas e línguas existentes ainda hoje é impressionante. Encontramos aproximadamente 7 mil línguas vivas e ativamente faladas no mundo. São línguas que possuem poder e status diferenciados, estão presente nas reuniões das principais nações e mesas de decisões políticas ou nas pequenas aldeias e vilas ao redor da fogueira. Conflitos e guerras, amizades e inimizades, paixões e amores, livros e cartas e muito mais já se produziu por causa de e por meio da linguagem humana.

    Não há dúvida de que a linguagem é um dos elementos centrais das nossas relações sociais. É por meio dela que interagimos, expressamos nossos sentimentos, transmitimos conhecimento e construímos novos saberes. Alguns linguistas chegam a afirmar que é por meio da linguagem que construímos os nossos pensamentos, e estes estão limitados à nossa capacidade de uso e conhecimento dela. Isto é, a nossa habilidade de pensar, entender e expressar o nosso mundo está limitado à nossa capacidade de uso da linguagem, quanto mais a dominamos e ampliamos nossas habilidades de comunicação, melhor entenderemos e expressaremos os nossos pensamentos.

    Observando ao nosso próprio Deus, temos nele o exemplo de uso da linguagem como canal de comunicação e revelação. O Senhor é o autor e criador da linguagem, sendo ele mesmo o primeiro a fazer uso dela. Deus falava com Adão, no jardim do Édem. Ele também orientou a Adão que nomeasse a todos os animais por meio da competência que o Senhor lhe havia dado de construir um léxico, identificando e descrevendo o universo real. Não apenas em Adão mas no decorrer de todo texto bíblico encontramos o Senhor fazendo uso da linguagem para se expressar e registrar a sua vontade, e isso se deu por meio da palavra falada e escrita, a qual temos hoje em nossas mãos.

    Quando pensamos nestas 7 mil línguas, não devemos entende-las como castigo do resultado descrito na história de Babel. A diversidade linguística é fruto da perfeita criação e criatividade do nosso Senhor presente em tudo aquilo que Ele criou. As diferentes culturas e línguas manifestam a glória do nosso Deus e refletem a sua grandeza e majestade, da mesma forma que a diversidade de fauna, flora, climas e paisagens também a expressam. Tudo o que o Senhor criou expressa a sua glória e as diferentes línguas e formas de comunicação também o fazem, como parte da sua criação.

     Um dos privilégios de um missionário transcultural é justamente o de participar de uma cultura e aprender uma língua diferente da sua própria. Os que são chamadas para o ministério de tradução da Bíblia, a especial tarefa de decifrar as nuances do universo da linguagem e se aprofundar nas minúcias da análise linguística recai sobre as suas mãos. Para tornar essa tarefa ainda mais desafiadora, a maiores dos grupos alvo dos missionários são falantes de línguas minoritárias, sendo elas, comumente pouco estudadas e documentadas, não havendo quase nada de material ou recurso para aprende-las. Não existem atalhos, o missionário precisa enfrentar o desafio de aprender uma nova língua se quiser comunicar o evangelho a outros povos.

    Quando pensamos na tarefa de tradução das Escrituras, lembramos que ela exige diversas competências e ferramentas para a sua realização. Uma vez que esta atividade lida intensamente com a língua alvo a ser alcançada, uma das principais ferramentas para o sucesso desta empreitada é a linguística. Esta ciência serve o ministério de tradução da Bíblia provendo justamente o conhecimento e ferramentas necessárias para se adquirir a competência exigida no aprendizado de uma nova língua e a tradução de um texto para ela.

     Na verdade, quando olhamos para a história das ciências da linguagem, vemos que ela tem caminhado de mãos dadas com a atuação missionária do cristianismo. Até o final do século XVIII, os estudos linguísticos foram quase que exclusivamente realizados por missionários cristãos. Os primeiros textos escritos em uma língua africana foram um catecismo na língua do Kongo, em 1624, sendo que a primeira gramática em uma língua da família Bantu foi feito pela missionário Giacinto Brusciotto, em 1659. Também na China, mesmo com a sua venerável tradição lexicográfica, os primeiros estudos gramaticais das línguas locais foram realizados com a chegada dos missionários. Também as línguas Arábicas, Siríaco, Persa, Cóptica, Etiópicas, Sânscrito, Tamil, Chinês, Tibetano, Burmes, Tailandês, Malaio e Japonês tiveram suas primeiras análises realizadas por trabalhos dos missionários.

     No Brasil, o francês calvinista Jean de Léry, protagonista do histórico episódio na Baía de Guanabara, é reconhecido entre os linguistas por ter gravado conversas e textos naturais em Tupinambá, sendo este o único material gravado existente nesta língua. Muitos outros recursos foram produzidos por missionários através da tradução da Bíblia e confecção de catecismos, livros de cânticos, sermões e textos utilizados nas igrejas e documentando aspectos da língua, história e cultura dos povos indígenas.

    A relação entre tradução da Bíblia e linguística se mostrou tão forte que William Cameron Townsend (1896-1982) criou duas importantes organizações missionárias especializadas nesta tarefa: a SIL Internacional (1934), antiga Sociedade Internacional de Linguística e a Wycliffe Tradutores da Bíblia (1942), sendo estas ainda hoje umas das principais organizações envolvidas no movimento de tradução da Bíblia, tendo como alvo o alcance de todas as línguas faladas no mundo.

     Identificar os diferentes sons de uma língua, as diversas maneiras como as palavras se formam, os lugares em que cada palavra deve se posicionar em uma sentença e as estratégias usadas por cada língua para construir um texto ou uma história são áreas estudadas pela linguística. Esta é uma ciência que todo tradutor da Bíblia precisa estar preparado para fazer uso dos seus recursos e saber como utilizar as ferramentas que ela disponibiliza.

     Quando olhamos para a grande comissão que nos foi entregue por Cristo, vemos que a mensagem do Reino deve ser comunicada a todos os povos. O sentido da palavra grega Kerigma, presente nos discursos de Jesus, nos deixa claro que esta mensagem deve ser comunicada de maneira clara, compreensível e inteligível a todos os povos. E isso só irá acontecer quando as Boas Novas de salvação forem anunciadas na língua materna de cada povo. Cabe à igreja a tarefa de continuar enfrentando os desafios linguísticos para anunciarmos as verdades de Cristo.

jesseJessé Fogaça
Pastor presbiteriano, linguista e tradutor da Bíblia. Membro da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), Australian Society for Indigenous Languages (AuSIL) e Summer Institute of Linguistics (SIL Internacional).

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