Entende o que lê?

Um desafio contemporâneo de tradução da Bíblia

    O ministério de tradução da Bíblia ainda é uma necessidade real e urgente. Mesmo depois de mais de 2 mil anos de esforços missionários da Igreja, aproximadamente 1,8 mil línguas não têm sequer um versículo bíblico traduzido. No entanto, os últimos anos têm evidenciado uma crescente aceleração nesse processo, diante de diversos avanços recentes nos estudos de tradução e de ciências afins, tornando realidade a possibilidade de, em nossa geração, ver todas essas línguas sendo alcançadas pelas Escrituras Sagradas. E isso vai acontecer, se a Igreja continuar cumprindo o seu chamado.

    Sendo assim, iniciamos aqui uma série de textos que vão discutir o processo de tradução das Escrituras Sagradas como frente missionária. Trabalho que deve ser realizado até que todos os povos etnolinguísticos tenham livre acesso à Palavra do nosso Deus em suas mãos de forma inteligível, seja ela por meio de recursos impressos, visuais, audiovisuais, etc. Também ousarei me aventurar no emaranhado de tradução da bíblia e o envolvimento de ciências que são aplicadas nesse ministério.

    Mas antes de adentrar esse labirinto, é preciso assegurar que o solo a ser pisado esteja firme porque sobre ele serão estabelecidos os principais fundamentos. O propósito de traduzir as Escrituras Sagradas para todas as línguas naturais faladas no mundo está firmado na crença inabalável da Bíblia como revelação infalível, inerrante e inspirada Palavra de Deus. Também é responsabilidade de todo cristão trabalhar para tornar a Palavra acessível aos diversos povos etnolinguísticos, possibilitando que eles tenham livre acesso ao Senhor da Palavra.

    A tradução da Bíblia também surte o efeito necessário para que seja possível a realização de evangelismo, ensinos bíblicos, discipulado e plantação de igrejas. Na verdade, é difícil pensar na plantação, no fortalecimento, na multiplicação ou mesmo na sobrevivência de uma igreja saudável sem que a Bíblia esteja nas mãos dos seus membros. A importância dada por cada um ao ministério de tradução da Bíblia é proporcional ao valor que o cristão dá às Escrituras Sagradas em sua vida. A Palavra é o alimento, o sustento e o fundamento espiritual. Por meio dela, a pessoa encontra respostas para suas indagações existenciais e sacia sua fome e sede de ouvir a voz de Deus. Portanto, se a Palavra do Senhor é o seu prazer e sobre ela você medita dia e noite, então você está plenamente consciente da relevância desse ministério entre todos os povos.

   É possível estar de acordo com o que foi dito, mas ainda não estar convencido da necessidade de caminhar nessa direção. É preciso passar pelos difíceis e demorados processos de tradução para línguas ainda pouco ou não estudadas. Esse pensamento acaba se fortalecendo ainda mais à medida que vêm à mente pequenos grupos linguísticos, como os indígenas do Brasil ou os grupos da Papua-Nova Guiné. O pensamento também prevalece diante de alguns países africanos ou asiáticos que têm diversos grupos linguísticos no mesmo território geográfico. Há muitos desses grupos debaixo de uma língua majoritária, geralmente europeia como o francês, o inglês ou mesmo o português.

    A melhor forma para comunicar verdades espirituais é por meio da língua materna do grupo que se pretende alcançar por meio da comunicação do Evangelho. É importante reconhecer a coexistência das línguas locais e nacionais e a diferença do papel de cada uma. Na busca pela comunicação de verdades profundas e transformadoras não há atalhos. A língua que fala íntima e efetivamente ao coração do homem é aquela pela qual ele foi moldado intelectualmente. Ela constitui suas estruturas emocionais desde os seus primeiros momentos de existência. Essa é a língua com que a criança ouve e interage com a mãe, antes mesmo de saber falar. É com essa linguagem que a criança expressa sentimentos, angústias, frustrações, raivas e é por meio dela que ela brinca com seus irmãos, joga bola com os colegas e manifesta os seus mais profundos pensamentos. Essa é a chamada língua materna, a que fala ao coração.

    Acontece que o desafio das línguas maternas dos grupos minoritários sempre foi, é e continuará sendo um obstáculo linguístico. Quem deseja transmitir uma mensagem a outro grupo linguístico precisa superar as adversidades. No caso de muitos dos missionários, especialmente os tradutores da bíblia, esses grupos são frequentemente falantes de uma língua que foi pouco estudada ou não chegou a ser documentada nem linguisticamente analisada. Essas línguas não têm uma organização formal de escrita entre grupos de pequeno nível de escolaridade. Assim há a necessidade de um preparo nos instrumentos de análise linguística. Esse é um dos primeiros pilares na formação de um tradutor da Bíblia.

    Uma vez que o processo de tradução é um trabalho altamente técnico, ele exige um apurado preparo no estudo dos vários níveis de análise de uma língua. Normalmente esse processo se inicia na descoberta dos sons da língua de estudo, na relação dos sons dentro da formação das palavras, no comportamento delas dentro das frases, no processo de construção de enunciados e no meticuloso tear de ideias formadas pela linguagem que permitem comunicar uma mensagem completa.

    Mas a comunicação não é restrita apenas à língua. Cada povo etnolinguístico tem recursos e estratégias extralinguísticas que fazem parte do seu processo de entendimento mútuo. Muito do que se fala nesses idiomas não está dito em palavras, mas em elementos e informações previamente compartilhadas entre os membros daquele processo de interação. Para observar os elementos portadores de sentido e integrantes da comunicação de determinado grupo, a análise antropológica tem sido uma das melhores ferramentas aplicadas a essa tarefa. O trabalho missionário transcultural sempre caminhou de mãos dadas com a antropologia. E essa parceria tem sido profícua para ambos os lados.

    Outra grande área de destaque no universo da tradução está diretamente ligada a recentes avanços nos estudos e instrumentos oferecidos pelas ciências e pela tecnologia da informação. Como foi mencionado, os últimos anos ofereceram uma significativa aceleração no trabalho de tradução das Escrituras. Com isso, resultados mais rápidos e precisos podem ser obtidos em menos tempo do que há uma década. Novos programas, softwares ou mesmo aplicativos de smartphones estão cada vez mais facilmente disponíveis e são ferramentas que muito tem auxiliado nesse processo.

    Enfim, tradução, linguística, antropologia, tecnologia e outras áreas serão alvo deste espaço de discussão nos próximos encontros. Tudo isso para falarmos sobre a nossa amada Escritura Sagrada se tornando disponível de forma inteligível a todos os povos, para que se encontrem com Cristo e vidas sejam transformadas e o Senhor adorado.

jesseJessé Fogaça
Pastor presbiteriano, linguista e tradutor da Bíblia. Membro da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), Australian Society for Indigenous Languages (AuSIL) e Summer Institute of Linguistics (SIL Internacional).

Uma missão possível

    Quais são os conhecimentos necessários para trabalhar com a tradução das Sagradas Escrituras? É comum pensar que tradução se trata de uma tarefa a ser realizada entre dois idiomas, por quem tem o domínio de ambos. No entanto, ela é mais do que a construção de uma ponte entre duas diferentes línguas para se transitar o sentido. As competências necessárias são ainda maiores quando falamos de um trabalho de tradução para línguas que possuem pouco ou nenhum estudo prévio, gerando desafios que transcendem os limites da linguagem, como no caso das traduções feitas pelos missionários para os povos com que trabalham.

    Importante se dizer, logo de início, que todo trabalho de tradução, mesmo os mais bem realizados, poderão atingir um alto grau de fidelidade e precisão, mas nunca alcançarão a perfeição. Cabe lembrar aqui o famoso ditado italiano, que descreve o tradutor: “traduttore, traditore”, isto é, “tradutor, traidor”. Com isso, quero lhe assegurar que não há tradução perfeita. Independentemente do número de edições, revisões, membros do comitê editorial ou qualquer outro controle de qualidade, a comunicação do sentido entre diferentes universos linguísticos e culturais nunca será exato, esta é uma tarefa que não está ao alcance das mãos humanas. Mas isso não significa que devemos desistir de traduzir ou diminuir o valor desse trabalho.

    Mesmo diante das limitações ressaltadas, cremos que pessoas podem ser alcançadas ao terem contato com o Evangelho por meio de uma tradução, mesmo que esta seja imperfeita. Aliás, foi assim comigo e, provavelmente, com você também, por meio de uma das traduções que temos para a nossa língua. Isso acontece porque, mesmo que as traduções disponíveis não tenham capturado as minúcias do significado dos primeiros textos bíblicos, ainda assim, a mensagem central é comunicada de forma clara e satisfatória para cumprir o seu propósito. A tradução da Bíblia ainda é a palavra de Deus, expressando a mensagem das Sagradas Escrituras, tendo o cerne do seu conteúdo preservado pelo próprio Senhor e sendo ela o instrumento do Senhor para transformar os corações daqueles que a leem.

    Olhando para a história da tradução da Bíblia vemos que ela começou com a Septuaginta, sendo seguida por uma longa lista de traduções, tendo, hoje, disponível ao menos um versículo para milhares de línguas. Mas também é uma história ainda não concluída, aguardando ser escrita para quase 2 mil povos etnolinguísticos. Tradução tem um passado marcado por muitas lutas, perseguições e sangue derramado, justamente por causa do debate das dificuldades e consequências envolvidas no processo. Por diversos momentos a Igreja se deparou com a seguinte pergunta: proteger e preservar o texto sagrado ou traduzir e arriscar incorrer em possíveis erros? Me permita um parêntese aqui: essa pergunta, ainda hoje, ecoa de forma aguda no peito de muitos tradutores da Bíblia.

    Mas foi em momentos em que a Igreja tentou proteger a Bíblia, evitando que ela estivesse disponível a todos, blindando-a para evitar que se incorresse em erros de interpretação e resguardando o seu acesso apenas aos líderes da igreja é que Deus levantou homens como John Wycliffe, William Tyndale, Lutero e muitos outros. Estes foram tradutores que, para colocar a palavra de Deus na mão de pessoas que não tinham acesso a ela, pagaram com suas próprias vidas. Wycliffe, por traduzir para o Inglês, foi condenado como herege e, após morto, foi exumado e teve seus ossos queimados e as cinzas lançadas no rio Swift, na Inglaterra. Tyndale viveu uma vida de perseguição e fuga até que, ao final, foi estrangulado e em seguida teve o seu o corpo queimado.

    Retornando à nossa pergunta inicial, o que um tradutor precisa saber para realizar sua missão? Em nosso primeiro texto, mostramos que verter a Palavra de Deus para uma outra língua requer conhecimento em tradução, linguística, antropologia, tecnologia e outras áreas, sem mencionar uma sólida formação em teologia bíblica e conhecimento do grego e hebraico bíblico.

     Como você já notou, desde o início deste texto estamos abordando a natureza da ciência da tradução propriamente. Como toda ciência, ela possui teorias e métodos que vem se desenvolvendo com o avanço dos estudos. Historicamente, a discussão girou em torno da busca por um resultado que se aproximasse de uma tradução com uma equivalência mais formal, preservando as estruturas e formas do texto, resultando em uma tradução mais literal, ou, a produção de um trabalho em se que apresentasse um texto mais dinâmico, priorizando a comunicação do sentido do texto fonte.

    De maneira geral, toda boa tradução bíblica tem por alvo a incansável produção de um texto claro, preciso, natural e aceitável. A presença desses quatro elementos é essencial. Por se tratar da Palavra do nosso Deus, é sine qua non que ilimitados esforços sejam aplicados na proteção da fidelidade do sentido do texto. Também uma produção textual que respeite as regras da língua alvo, possibilitando uma leitura que possa ser feita com clareza e fluidez é de suma importância. Não há razão para a existência de um texto artificial e com poucas condições de leitura. Não foi por acaso que o Novo Testamento foi escrito em Grego Koine, que era um grego mais popular e acessível a todos.

    Espero que você tenha compreendido um pouco dos desafios da tradução da Bíblia. Este é uma história ainda não concluída, pois muito ainda há por se fazer. Perseguições, lutas e sangue a ser derramado ainda precisam ser superados para que a boa mensagem do Evangelho chegue às mãos dos que ainda não a conhecem, e Cristo, nosso mestre, seja anunciado entre todos os povos. Também a história nos ensina que a palavra do nosso Deus permanece para sempre. Ela já atravessou milênios, é o livro mais traduzido, lido e distribuído na humanidade e tem se provado indestrutível na sua vulnerabilidade. E não apenas a história nos ensina isso, pois o nosso próprio Senhor nos diz que “Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu.” (Sl 119.89).

 

 

jesseJessé Fogaça
Pastor presbiteriano, linguista e tradutor da Bíblia. Membro da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), Australian Society for Indigenous Languages (AuSIL) e Summer Institute of Linguistics (SIL Internacional).